Educar para transformar

Mariângela Quartim e Mauro Jensen têm muito em comum: ambos dedicam sua vida à cultura, são apaixonados pela arte e estão na gerência de duas das instituições mais tradicionais de Ribeirão Preto: ela é gerente administrativa da Associação Musical de Ribeirão Preto, a mantenedora da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Ele é formado em educação física, pós-graduado em empreendedorismo social e gerente regional do Sesc, onde atua há 30 anos. Há pouco mais de seis meses, deixou a unidade São Carlos para assumir a unidade em Ribeirão Preto.

Em entrevista acompanhada pela jornalista Carla Mimessi, Mariângela conduz Mauro pelos os bastidores do Sesc por meio de sua própria trajetória. Ao entrar nesse universo tão rico, Mauro fala sobre o aprendizado que adquiriu dentro da Instituição, conta suas expectativas em relação a Ribeirão Preto e aponta os desafios que estão por vir em meio ao conturbado cenário econômico brasileiro.

Mariângela: Como está se adaptando a Ribeirão Preto e qual é a sua expectativa pessoal em relação à nossa cidade?

Mauro: Na verdade, minha vida no Sesc tem sido de adaptações: esta é minha décima unidade. Mudança sempre foi algo natural para mim, nunca encarei como um incômodo, mas como um aspecto positivo: de não se acomodar a uma situação na qual se sente confortável. A maioria das minhas mudanças ocorreu em unidades da capital paulista, onde trabalhei grande parte da minha carreira, desde que entrei, em 1984, como temporário. Dos meus 30 anos de Sesc, 24 anos passei em São Paulo. Estou feliz por estar em Ribeirão Preto e tranquilo. Adaptei-me muito fácil, pois a cidade preserva características do interior, mas tem tudo o que o que se precisa: esporte, cultura, lazer e serviços. É uma cidade eclética, diversificada, que está preparada para atender a todos os gostos. A mudança traz sempre a oportunidade de conhecer novas pessoas, motiva a aprender, a reciclar nosso repertório e a estarmos preparados para situações que sequer imaginávamos.

Mariângela: Imagino que cada unidade tenha a sua própria realidade. Aprendeu muito em sua jornada no Sesc?

Mauro: Muito. Cada unidade tem sua peculiaridade e tive, com cada uma delas, uma aprendizagem diferente. Trabalhar em Itaquera é atender a uma população carente que chega a 20 mil pessoas nos finais de semana; lá aprofundei meu contato com a comunidade. Em Pompeia, desenvolvi o aspecto mais cultural; em Santana, unidade na zona norte, resgatei um pouco do Mauro interiorano, nascido em Araraquara. Santana também trouxe muitas recordações, porque as pessoas sempre preguntavam meu sobrenome, se havia nascido, se tinha família ali. A passagem por São Carlos me aproximou de minha cidade natal e, agora, estou em Ribeirão Preto para mais um desafio. Vamos ver que aprendizado a cidade me reserva.

Mariângela: Como transcorreu sua capacitação dentro do Sesc?

Mauro: Quando entrei no Sesc, queria ser um coordenador de programação, mas acabei me embrenhando na história do Sesc, encantando-me com os desafios que foram postos à minha frente. Um dos desafios que enfrentei no início da carreira foi o “Mesa Brasil”, que, na época, ainda era “Mês São Paulo”. Comecei no Mesa Brasil, no Sesc Carmo, há 20 anos, atuava na área esportiva. Nessa unidade, tinha um restaurante que servia cinco mil refeições para empresas e para o público local. Esse serviço atraía um grande número de pedintes. O gerente da época estava incomodado com o fato de distribuir a comida para os pedintes na porta da unidade, queria mudar essa cena. Já havia experiências de bancos de alimentos em Nova Iorque, em que se pegava os alimentos de onde estava sobrando e mandava para lugares onde faziam falta. O Mesa Brasil faz esse trabalho de logística. Os fornecedores são, basicamente, as grandes redes de supermercados e de hortifrutigranjeiros, e os receptores, as entidades que realizam um trabalho de transformação junto a crianças, jovens e adultos. Se continuássemos distribuindo comida na porta da unidade Carmo, estaríamos perpetuando um trabalho assistencialista. Levávamos o alimento a essas instituições para que elas focassem em outras ações necessárias para o atendimento desses públicos. Na época, foi um aprendizado: comecei a visitar instituições e a descobrir as entidades fantasmas — jamais teria tido essa experiência com minha formação de treinador físico. O Sesc me deu a possibilidade de ampliar meu repertório. Em cada unidade que trabalhei, desenvolvi um trabalho diferente que me capacitou, e acabei totalmente envolvido com a instituição.

Mariângela: Como está projeto de reforma do Sesc e por que a opção de permanecer no centro da cidade?

Mauro: A cidade tem um potencial muito grande, assim como sua população. O Sesc precisa ser reformulado, ampliado e modernizado para continuar oferecendo qualidade. A unidade de Ribeirão Preto é a mais antiga do interior. Optamos por nos manter no centro por dois fatores importantes: a perspectiva de modificação do entorno, que teria impacto direto na região central da cidade, e a facilidade de acesso ao espaço. Entendemos que o Sesc pode ajudar a revitalizar a região. Já temos um público fiel, uma frequência grande, e as pessoas estão acostumadas ao local e à facilidade de chegar até ele. O Sesc Ribeirão Preto não foi construído segundo o conceito das demais unidades, foi sendo ampliado dentro de suas limitações. Agora, com um arquiteto contratado, a ideia é triplicar nossa capacidade de atendimento. Hoje, temos 6 mil metros construídos, passaremos a ter 18 mil; temos uma capacidade instalada de 1.300 atendimentos e, com a reforma, poderemos chegar a quase 4.000; vamos ganhar um teatro, um ginásio de esportes, uma piscina coberta, várias salas de atividades; teremos uma área de convivência mais ampla, o mesmo em relação à biblioteca e à sala de atividades físicas. Poderemos ter uma equipe para atender no período noturno e ajudar a revitalizar o centro, que tem espaços maravilhosos.

Mariângela: Escolher outra região seria mais fácil do ponto de vista de quem constrói, mas não seria tão importante quanto revitalizar o centro.

Mauro: Por que não criar um modelo propositivo junto ao empresariado e às autoridades, para revitalizar espaços que podem ser utilizados e desenvolvidos para trabalhar melhor a nossa educação? Há espaços maravilhosos que precisam ser oxigenados para que possamos atender a um maior número de pessoas. As parcerias são sempre bem-vindas, essa é uma marca do Danilo Sérgio Miranda, nosso diretor regional. Sempre procuramos trabalhar em conjunto, pois não se resolve os problemas de um país sozinho. Temos que nos juntar a outras inteligências para desenvolver um bom trabalho.

Mariângela: Tradicionalmente, a parceria é uma marca do Sesc. O que podemos esperar da sua gestão em relação a isso?

Mauro: Seguirei o modelo do diretor regional, não acredito em um trabalho isolado. Quando reunimos inteligências em prol de um projeto, aumentamos as possibilidades, alcançamos o que não conseguiríamos de forma isolada. Estamos abertos às parcerias com prefeitura, casas de cultura, teatros e todas as instituições culturais da cidade. Se eu pudesse resumir a missão do Sesc, diria que trabalhamos com o desenvolvimento humano, por meio da cultura, do lazer e da educação informal. É importante otimizar os equipamento, pois a cidade tem uma tradição, que queremos ajudar a manter. Para isso, temos que fazer os eventos acontecerem e revitalizar os espaços culturais.

Mariângela: O Sesc é quase uma segunda Secretaria de Cultura que deu certo: tem peso e tamanho, e, mesmo sem os equipamentos necessários, é eficiente. Por quê?

Mauro: O Sesc tem gestão continuada, não existe essa história de “sob nova direção”.

Mariângela: As atividades culturais promovidas pelo Sesc conduzem o usuário a uma reflexão que causa a transformação social. O que mais a equipe considera na escolha dos espetáculos?

Mauro: O Sesc tem uma equipe multidisciplinar, composta por pessoas formadas nas mais diversas áreas do conhecimento. Essa diversidade é a riqueza do Sesc. Como temos pessoas de diferentes vocações se dedicando às mais diversas áreas, procuramos explorar esses talentos e atender a todos. Temos seis grandes programas: esporte, cultura, lazer, saúde, educação e assistência. Procuramos focar neles para montar a programação. Se não tivéssemos a diversidade de profissionais, a programação ficaria muito pobre, tendenciosa. Procuramos verificar se as atrações têm um leque abrangente e se atendem aos programas colocados como diretrizes pelo Sesc Nacional. Cada unidade tem seu estilo de atuar dentro desses programas, devido à influência do diretor regional.

Mariângela: Estruturalmente, como funciona o Sesc?

Mauro: Temos uma administração central, cujo diretor está no Sesc Belenzinho. Além disso, temos várias gerências que norteiam nosso trabalho. Todas as unidades têm autonomia, mas são alinhadas dentro de um conceito de trabalho. A proposta de um Sesc é sempre um pouco diferente da proposta de outro, não no sentido de conceito, mas em relação ao equipamento. Como a nossa unidade é menor do que algumas da capital, trabalhamos mais no sentido de um processo que visa à transformação e à educação informal. Ao Sesc Interlagos, por exemplo, devido à distância da unidade, as pessoas vão eventualmente, enquanto em Ribeirão Preto temos um público assíduo. As propostas dessas duas unidades acabam sendo um pouco diferentes pelo tipo de frequência.

Mariângela: Você tem o hábito de ouvir os usuários do Sesc para saber quais são as críticas e as sugestões?

Mauro: Se fôssemos traduzir, poderíamos dizer que trabalhamos com comunicação, porque conversamos o tempo todo com as pessoas. Sempre digo à equipe de programação que temos que sair, de vez em quando, detrás das mesas para saber o que o público está pensando, se tem alguma expectativa que ainda não atendemos. Temos 111 funcionários diretos em Ribeirão Preto, mas poderíamos dizer que temos mais de mil, porque os artistas colaboram o tempo todo, ajudando, inclusive, a montar a programação. A equipe interna do Sesc articula, funciona como um facilitador, que tem a reponsabilidade de montar e organizar, mas a programação final é feita por muitas cabeças. Muita gente está envolvida nessa programação de qualidade. Temos que continuar esse trabalho.

Mariângela: O Danilo disse em entrevista que o aumento do dólar fez com que a programação especial, que envolve eventos internacionais, fosse alterada. Você terá que fazer alguma mudança na programação que já estava definida desde o início do ano?

Mauro: No básico, em relação aos programas, não seremos afetados até o final do ano, pois o Sesc tem um bom planejamento financeiro. É claro que os eventos que o diretor, junto com a equipe de administração central, traz de fora acabam sendo comprometidos. Não dá para trazer um grupo internacional com o dólar a R$ 4,00. Não justifica, nesse momento de crise, fazer um dispêndio de dinheiro para trazer um grupo que pode vir em outro momento, em um contexto mais favorável. O Sesc está aí, não vai parar, esperamos que ele possa se perpetuar por muitos anos.

Mariângela: Existe uma contribuição direta do governo federal para o Sesc?

Mauro: Não, o dinheiro do Sesc vem em cima do 1,5% do empresariado do comércio e dos serviços, a partir de um pacto de 1946. O empresário do comércio e serviço decidiu investir no desenvolvimento econômico e social. É contraditório porque esse 1,5% da folha de pagamento é recolhido pela Previdência, que nos repassa mediante cobrança de taxa. O governo quer aproveitar que esse dinheiro do Sistema S passa pela Previdência e reter 30% do total para sanar os problemas da própria Previdência.

Mariângela: Como você avalia essa atitude do governo?

Mauro: Por que países que tiveram problemas com guerras e catástrofes naturais, como Japão e Alemanha, hoje são tão adiantados? Porque investem na educação. Aqui, o país entra em crise e corta, justamente, a verba da educação e da cultura, o que é um equívoco. É preciso capacitar as pessoas, ampliar o repertório delas para que possam vislumbrar saídas, escolher outros caminhos. Se limitarmos o repertório das pessoas, o caminho se torna único, fica tudo estagnado. Nosso governo, equivocadamente, pretende segurar 30% da verba anual do Sesc, o que equivale a R$ 9 bilhões ao ano, um dinheiro que vai impactar diretamente no nosso trabalho, mexer com o público interno, com os projetos de ampliação, podendo prejudicar até a futura reforma da Unidade Ribeirão Preto. Todo ano, o fazemos o planejamento e uma reflexão profunda, como em agosto, quando teve uma redução no recolhimento. Sempre refletimos sobre investir adequadamente os recursos, sobre o efeito desses projetos. Ultimamente estamos ainda mais atentos. Se passar pelo Congresso, a retenção desses 30% do Sistema S vai prejudicar o Sesc, o Senai, o Senac, além de outras instituições, e milhares de alunos. Proporcionalmente, é como se tivéssemos que cortar 30% das pessoas que atendemos. O impacto será muito grande.

Mariângela: Como vocês tomaram ciência dessa decisão do governo?

Mauro: O mais estranho é a gente achar que está em um país democrático e todo o comando do Sistema S ficar sabendo da notícia pela mídia. Em nenhum momento, fomos consultados ou tivemos a oportunidade de dialogar. Foi uma ação autoritária. As pessoas precisam saber que o governo está querendo tirar dinheiro de um local que gasta melhor que ele. Pretende repassar uma verba que o Sistema S vem gastando bem para um governo que se mostra ineficiente, que não administra direito os seus recursos. Essa crise foi criada por essas pessoas que estão no comando.

Mariângela: Qual é o caminho dessa decisão?

Mauro: Segue para o Congresso Nacional. Não conhecemos o trâmite na íntegra, porque nem para a nossa direção está claro como será feita a transferência de recursos. Como ainda não é constitucional a manobra, o Sesc pretende procurar a Justiça. Infelizmente, estão punindo quem procurou fazer, planejar e organizar. O governo tinha que mexer no que não está funcionando, repensar o orçamento, os ministérios e uma série de ações que não são relevantes. Não deveria cortar a educação e a cultura, que fazem com que as pessoas criem repertório para driblar a crise e até a ajudar a alavancar nosso país.

Uma visão transformadora

“Quando fui, há poucos meses, apresentada a Mauro César Jensen, gerente do SESC desde janeiro de 2015, minha primeira impressão foi que ele tem como maiores objetivos a formação do cidadão, a valorização da produção local e a visão da arte como instrumento transformador. Sendo o SESC uma das mais importantes instituições, não só para a cultura, mas especialmente para a educação, com uma gestão de excelência, meu interesse em entrevistá-lo foi para mostrar e conhecer, de maneira mais profunda, seu pensamento. Fiquei muito honrada com a oportunidade e feliz em confirmar minha primeira impressão.” Mariângela Quartim, gerente administrativa da Associação Musical de Ribeirão Preto.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão
Fonte: Revide

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